15/06/2020 Todos os digestsTratamentos e Vacinas

Desenvolvimento de uma vacina para a COVID-19: aprendendo com a resposta imunitária

Várias empresas e grupos de investigação por todo o mundo estão a desenvolver candidatos a vacinas para combater a pandemia da COVID-19. A eliminação do vírus pelo nosso sistema imunológico em pacientes considerados de baixo risco é um forte indicador de que será possível desenvolver uma vacina para a COVID-19. Idealmente, uma vacina eficaz deve recapitular o tipo de resposta imunológica protetora promovida pela infeção natural. Assim, um melhor conhecimento da resposta imunológica de pacientes que naturalmente resolveram a infeção pode fornecer pistas e ajudar ao desenho de vacinas candidatas com melhor perfil protetor e também ajudar a avaliação de desempenho destas vacinas em fase de ensaios clínicos.

Um estudo recente, publicado pela revista científica Cell, um grupo de cientistas liderada por Shane Crotty e Alessandro Sette do Instituto La Jolla (EUA), caracterizou a resposta imunitária de 20 indivíduos não hospitalizados (com idades compreendidas entre os 20 e os 66 anos) que resolveram espontaneamente a SARS -CoV-2 e descobriram que todos os pacientes tinham células T CD4+, células T CD8+ e anticorpos específicos para SARS-CoV-2, que são importantes já que estão envolvidos na resposta eficaz à eliminação da infeção.

Este estudo revela ainda que embora a grande maioria dos anticorpos tenha como alvo a proteína spike do vírus, a resposta celular é mais variada e dirigida a diferentes proteínas do vírus, nomeadamente a spike, mas também M, nsp6, ORF3a e N. Esta observação é relevante porque a proteína spike SARS-CoV-2 é um componente-chave da grande maioria das vacinas em desenvolvimento. Os cientistas postulam que embora uma vacina baseada na proteína spike possa ser suficiente para desencadear uma resposta imunitária, a vacina ideal deverá incluir um conjunto diverso de proteínas virais de forma a mimetizar melhor a resposta imunitária natural por coronavírus.

Os cientistas avaliaram também se uma exposição anterior a coronavírus comunitários poderia conferir algum grau de imunidade à COVID-19, chamada de imunidade cruzada. Para isso, a mesma série de testes foram realizados com amostras de 20 indivíduos saudáveis ​com idades semelhantes recolhidas entre 2015 e 2018 para excluir qualquer possível exposição à SARS-CoV-2. A deteção de um número baixo, mas significativo, de células T CD4 + reativas à SARS-CoV-2 em 40% a 60% dos indivíduos sugere que, de fato, a pré-exposição aos coronavírus causadores das constipações comuns pode gerar alguma pre-imunidade ao SARS-CoV-2. No entanto, ainda fica por determinar se essa imunidade é relevante para influenciar os resultados clínicos ou não. Com base em dados anteriores de modelos de ratinhos infetados com SARS-CoV-1 e no que se conhece do vírus da gripe pandémica vs gripe sazonal, os cientistas especulam que essas células podem de facto ter um papel importante na imunidade protetora.

Questionando-se sobre o possível agravamento da doença desencadeado pela imunização, um fenômeno conhecido e comum em infeções pelo vírus da dengue, os cientistas são cautelosos: “não se sabe se uma forte resposta imune à SARS-CoV-2 é protetora ou patogénica ou se ambos os cenários podem ocorrer dependendo do tempo, composição ou magnitude da resposta imune”. Neste momento todos os estudos indicam a prevalência de uma resposta imune benigna em pacientes convalescente. Níveis elevados de citocinas e quimiocinas como a IL-6, específicas de situações clínicas críticas (UCI) e fatais de COVID-19 (e SARS) estão ausentes nas amostras testadas. Claramente, são necessários mais estudos, mas os cientistas estão otimistas com os resultados. Este trabalho demonstra que a infeção natural por SARS-CoV-2 provoca uma resposta imune com características protetoras, enfatizando por isso que a “COVID-19 é um forte candidato ao rápido desenvolvimento de uma vacina“.